Cirurgia de Refluxo: Quando é Indicada, Como Funciona e o que Esperar

O refluxo gastroesofágico é uma condição extremamente comum e, para a maioria das pessoas, controlada com medicamentos e mudanças no estilo de vida. No entanto, existe um grupo de pacientes para quem o tratamento clínico não é suficiente — seja porque os sintomas persistem, seja porque surgem complicações mais sérias. Nesses casos, a cirurgia de refluxo, conhecida tecnicamente como fundoplicatura, se torna uma alternativa real e eficaz para recuperar a qualidade de vida.

Neste artigo, você vai entender o que é essa cirurgia, quando ela realmente é indicada, como é o procedimento, quais os riscos envolvidos e qual sua relação direta com a obesidade — um dos principais fatores associados ao agravamento do refluxo.

O que é a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE)

A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) ocorre quando o esfíncter esofágico inferior — uma espécie de válvula localizada entre o esôfago e o estômago — não funciona corretamente, permitindo que o conteúdo ácido do estômago retorne para o esôfago. Esse retorno constante do ácido causa sintomas como azia, queimação, regurgitação, tosse crônica e, em alguns casos, dor no peito que pode ser confundida com problemas cardíacos.

Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento e agravamento da DRGE, entre eles a hérnia de hiato, o sedentarismo, o tabagismo, e principalmente a obesidade. O excesso de peso aumenta a pressão intra-abdominal, o que empurra o conteúdo do estômago em direção ao esôfago com mais frequência e intensidade. Não à toa, estudos apontam que a doença do refluxo está presente em até metade dos pacientes com IMC acima de 30 kg/m².

Quando o tratamento clínico não é suficiente

Na maior parte dos casos, o tratamento da DRGE começa com mudanças de hábito — como perda de peso, ajustes na alimentação e elevação da cabeceira da cama — associadas ao uso de medicamentos inibidores de bomba de prótons, que reduzem a produção de ácido no estômago. Para grande parte dos pacientes, essa abordagem já é suficiente para controlar os sintomas.

Entretanto, existe um grupo de pacientes que não responde bem ao tratamento clínico, ou que desenvolve complicações mesmo em uso contínuo da medicação. É nesse contexto que a cirurgia de refluxo passa a ser considerada, especialmente diante de quadros como esofagite erosiva persistente, hérnia de hiato volumosa, ou o esôfago de Barrett — uma alteração celular do revestimento esofágico associada ao refluxo crônico e não tratado.

Outro motivo comum para a indicação cirúrgica é a intolerância aos medicamentos ou o desejo do próprio paciente de não depender de remédios pelo resto da vida, principalmente entre pacientes mais jovens que já convivem há anos com o problema.

Como funciona a cirurgia de refluxo (fundoplicatura)

A fundoplicatura é o procedimento cirúrgico mais utilizado para o tratamento definitivo da DRGE. Durante a cirurgia, o cirurgião utiliza a parte superior do estômago — o chamado fundo gástrico — para envolver a porção inferior do esôfago, criando uma espécie de válvula que reforça o mecanismo natural contra o refluxo. Com essa nova barreira, o ácido do estômago deixa de retornar ao esôfago com a mesma facilidade.

Existem diferentes técnicas de fundoplicatura, sendo a mais conhecida a fundoplicatura de Nissen, considerada o padrão-ouro no tratamento cirúrgico do refluxo. Nela, o fundo gástrico envolve completamente o esôfago, em 360 graus. Já as técnicas parciais, como a fundoplicatura de Toupet (270 graus) e a de Dor (180 graus), são indicadas em situações específicas, principalmente quando há alteração na motilidade do esôfago, já que reduzem o risco de efeitos colaterais como dificuldade para engolir.

Atualmente, a cirurgia é realizada, na grande maioria dos casos, por videolaparoscopia — uma técnica minimamente invasiva, feita por meio de pequenas incisões no abdômen, com auxílio de câmera e instrumentos cirúrgicos especiais. O procedimento costuma durar entre 45 e 60 minutos, sob anestesia geral, e a recuperação tende a ser rápida: muitos pacientes recebem alta hospitalar no dia seguinte à cirurgia.

A relação entre obesidade, cirurgia bariátrica e refluxo

Para quem já convive com sobrepeso ou obesidade, entender a relação entre o peso corporal e o refluxo é fundamental. O excesso de gordura abdominal aumenta a pressão sobre o estômago, favorecendo o retorno do conteúdo ácido para o esôfago. Por isso, em muitos casos, o tratamento do refluxo passa, necessariamente, pelo tratamento da obesidade.

É interessante notar que, entre os benefícios da cirurgia bariátrica, especialmente quando realizada pela técnica de bypass gástrico, está justamente a melhora significativa — e muitas vezes a resolução completa — dos sintomas de refluxo. Isso acontece porque essa técnica reduz não apenas o peso corporal, mas também altera a anatomia do trato digestivo de forma a diminuir a exposição do esôfago ao ácido.

Já em relação a outras técnicas bariátricas, como a gastrectomia vertical (sleeve gástrico), a relação com o refluxo é mais controversa: alguns estudos apontam para o surgimento ou agravamento dos sintomas após a cirurgia, o que reforça a importância de uma avaliação individualizada com o cirurgião antes de decidir qual técnica é mais adequada para cada paciente que apresenta as duas condições associadas.

Riscos e cuidados da cirurgia de refluxo

Como todo procedimento cirúrgico, a fundoplicatura envolve riscos, ainda que a técnica por videolaparoscopia tenha reduzido consideravelmente as complicações em comparação à cirurgia aberta. Entre os riscos mais discutidos está a migração da válvula criada durante a cirurgia, que pode ocorrer em uma parcela dos pacientes ao longo dos anos, especialmente em mulheres e pacientes mais velhos.

Outro ponto de atenção é a possibilidade de disfagia — dificuldade para engolir alimentos — principalmente nos primeiros meses após o procedimento, período em que o organismo se adapta à nova anatomia criada pela válvula. Por isso, o pós-operatório costuma incluir uma transição gradual da dieta, começando por líquidos e alimentos pastosos, evoluindo progressivamente para a alimentação normal.

É importante destacar que, mesmo após a cirurgia, uma parcela dos pacientes pode voltar a apresentar sintomas de refluxo ou necessitar de medicação a longo prazo, especialmente quando fatores de risco como obesidade não são adequadamente tratados em paralelo. Isso reforça que a fundoplicatura não deve ser vista isoladamente, mas como parte de uma estratégia mais ampla de cuidado com a saúde digestiva.

Quem é candidato à cirurgia

De forma geral, são considerados bons candidatos à cirurgia de refluxo os pacientes que já tentaram o tratamento clínico adequado, com uso correto da medicação, por tempo suficiente, mas que continuam apresentando sintomas significativos ou complicações relacionadas à DRGE. Também entram nesse grupo pacientes com hérnia de hiato volumosa, esofagite grave que não cicatriza com o tratamento medicamentoso, ou aqueles que, por motivos pessoais ou clínicos, não podem ou não desejam manter o uso contínuo de medicamentos.

A decisão final sobre a indicação cirúrgica deve sempre considerar uma avaliação completa, que inclui exames como endoscopia digestiva, manometria esofágica e, em alguns casos, phmetria de 24 horas, para confirmar o diagnóstico e entender o funcionamento do esôfago antes de definir a melhor técnica cirúrgica para cada paciente.

Recuperação e resultados esperados

A recuperação da cirurgia de refluxo por videolaparoscopia costuma ser rápida quando comparada a procedimentos abertos. A maioria dos pacientes retorna às atividades cotidianas em poucos dias e ao trabalho em uma ou duas semanas, dependendo da natureza da atividade exercida. Nos primeiros dias, é comum a recomendação de dieta líquida ou pastosa, evoluindo gradualmente conforme a orientação médica.

Os resultados, na grande maioria dos casos, são bastante positivos: os pacientes relatam melhora expressiva da azia, da regurgitação e da tosse crônica associada ao refluxo, além de reduzirem — ou eliminarem — a necessidade de uso contínuo de medicamentos. Ainda assim, o acompanhamento médico regular após a cirurgia é essencial para monitorar a evolução e identificar precocemente qualquer sinal de recidiva dos sintomas.

Vale a pena considerar a cirurgia de refluxo?

Para quem já convive há anos com o refluxo, dependendo diariamente de medicação e ainda assim enfrentando sintomas que impactam a qualidade de vida, a cirurgia de refluxo pode representar uma solução definitiva e segura. O primeiro passo é sempre buscar uma avaliação especializada, que vai considerar o histórico clínico, os exames complementares e, quando aplicável, a presença de obesidade associada, para indicar o tratamento mais adequado — seja ele isolado, seja combinado a um procedimento para tratar o excesso de peso.

Mais do que resolver um sintoma isolado, o objetivo é devolver ao paciente uma relação saudável com a alimentação e o dia a dia, sem o desconforto constante causado pelo refluxo.

Perguntas Frequentes

A cirurgia de refluxo dói muito?

Por ser realizada, na maioria dos casos, por videolaparoscopia, a dor pós-operatória costuma ser bem menor do que em cirurgias abertas. É comum sentir desconforto leve nos primeiros dias, controlado com analgésicos comuns.

Quanto tempo dura a recuperação?

A maioria dos pacientes recebe alta hospitalar no dia seguinte ao procedimento e retorna às atividades cotidianas em poucos dias, podendo voltar ao trabalho em uma a duas semanas, conforme orientação médica.

A cirurgia elimina totalmente a necessidade de remédio?

Na maior parte dos casos, sim, os sintomas melhoram significativamente e o uso de medicação é reduzido ou eliminado. No entanto, uma parcela dos pacientes pode precisar retomar o uso de medicamentos ao longo dos anos, especialmente se outros fatores de risco, como a obesidade, não forem tratados.

Pessoas obesas podem fazer a cirurgia de refluxo?

Sim, mas nesses casos a avaliação deve considerar também o tratamento da obesidade, já que o excesso de peso é um dos principais fatores que favorecem o refluxo. Em alguns casos, a cirurgia bariátrica pode ser indicada como parte da solução.

Qual a diferença entre fundoplicatura de Nissen, Toupet e Dor?

A diferença está no grau de envolvimento do esôfago pelo fundo gástrico. A de Nissen é total (360°), enquanto Toupet (270°) e Dor (180°) são parciais, indicadas principalmente quando há alteração na motilidade esofágica.

Quais exames são necessários antes da cirurgia?

Geralmente são solicitados endoscopia digestiva, manometria esofágica e, em alguns casos, phmetria de 24 horas, para confirmar o diagnóstico e planejar a técnica cirúrgica mais adequada.

"Pacientes que não obtêm alívio com medicamentos, que dependem de remédios continuamente ou que apresentam complicações como esofagite erosiva e esôfago de Barrett podem ser candidatos ideais para a cirurgia." — Dr. Antonio Couceiro Lopes

Análise complementar, com base na internet:

A relação entre obesidade e refluxo gastroesofágico é bidirecional e cada vez mais estudada: dados apontam que a presença de doença do refluxo chega a metade dos pacientes com IMC acima de 30 kg/m², o que reforça a importância de tratar o peso corporal como parte da estratégia terapêutica contra o refluxo. Saiba mais em RR Médicos.

Diferentes técnicas de cirurgia bariátrica têm efeitos distintos sobre o refluxo: enquanto o bypass gástrico tende a melhorar os sintomas na maioria dos pacientes, a gastrectomia vertical (sleeve) apresenta resultados mais controversos, podendo inclusive agravar o quadro em alguns casos. Entenda melhor em Portal Afya.

A escolha entre as técnicas de fundoplicatura — Nissen, Toupet ou Dor — não é aleatória e depende diretamente da função motora do esôfago de cada paciente, o que reforça a importância de exames como a manometria esofágica antes da decisão cirúrgica. Mais detalhes em ResumeAI Concursos.

Estudos de longo prazo mostram que uma parcela considerável dos pacientes operados pode voltar a precisar de medicação anos após a fundoplicatura, o que reforça que a cirurgia deve ser vista como parte de uma estratégia contínua de cuidado, e não como uma solução definitiva isolada. Veja a análise em Sanarmed.

A atualização das regras do Conselho Federal de Medicina para cirurgia bariátrica passou a considerar o refluxo gastroesofágico com indicação cirúrgica como um critério para a realização do procedimento mesmo em pacientes com IMC entre 30 e 35, o que amplia o acesso ao tratamento para quem sofre com as duas condições associadas. Leia mais em Portal CFM.

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